eu me lembro
dos casulos vazios das cigarras no pátio
depois da mureta azulejada, na casca da árvore
da cor da sirene presa no topo do pilar azul
e o barulho dos carros na rua
como um chocalho, como um mero efeito de som

de não saber te explicar nada, de nunca tê-lo feito
dos buracos que ficaram nas paredes
os parafusos calados, cheios de um profundo tédio
como se fosse agora, me lembro

de tudo que se considerou bonito
e como parecia já não ter mais forma alguma
de quando nasci, devagar e de repente,
chorei tanto, lembro-me do teu colo
também um abraço confuso, onde não se sabia bem o propósito

da audácia, do relaxamento, lembro-me de escrever de olhos fechados
de prender o ar e privar com sons esses medos
o pavor imenso de estar do seu lado
e como você puxava alguém para tão perto
como dividíamos a mesma miséria, sem rédea

e o caderno sempre ao lado como um cachorro
e aquela música que você ouvia com fome e com raiva
como uma fascinação sutil, como uma fumaça,
que se engancha desde os fios mais finos do fundo do estômago
e nos traz pra cima, feito uma ânsia de vômito

me lembro da explosão debaixo das árvores
e de como era frio no meio da rua, como era cinza e branco
quando atravessávamos as pontes e nos beijávamos
e corríamos dentro do grito de um medo eufórico, desejoso

lembro-me dos tapetes coloridos e suas peles de algodão
do cheiro familiar do quarto, ali mesmo onde me deitava
de nunca ter podido dizer nada, e ainda assim,
ter morrido de uma profunda nostalgia.