Qomolangma

Se quiser me jogar aos leões, me incendiar em uma fogueira ou conter em uma gaiola, quem poderá impedi-la? Tuas armas não são como as minhas, teu sagrado não é como o meu. Teus métodos são outros que os meus. A que se dispõem tuas alianças é distinto três oceanos e um continente do que as minhas. Mas se era a sua esperança que isso me calasse, fizesse sorver minhas palavras num sumidouro, sinto nada ao informar que já é tarde e que já foram ouvidas. Tudo daqui em diante é mera desinência. Posso informar, inclusive, que disse muito pouco de novidade e que desta raiz de onde as rebrotei havia outras oito bilhões e oito vezes isso ainda por brotarem, assim eu vi. Não é comigo que você está lidando: é com uma força da natureza.

Não há nada de grandioso nisso. De onde mais teria vindo? Não é por cortar esta artéria e depois me arrastar em um misto de vontade e culpa para religá-la que seria diferente, fazendo infinitos ritos, sacrificando gente, martirizando a Terra e fabricando mitos. Triste foi o destino de quem inventou sua própria queda, sua própria redenção e, por ter tudo inventado com pó, palavras e silêncios, ter tido que inventar também o seu próprio fracasso.

E o seu espanto, o mesmo que faz pisar insetos e esmagá-los com os dedos por simplesmente tê-los visto, faz parecer não saber nada de intenções, das dimensões onde você ou eu estamos. Há quem entre em pânico, se agarre a uma resposta qualquer, e tente a todo custo fazer entortar o mundo para caber neste quadrado, com seus ângulos retos. Há quem simplesmente minta: para si, para o arredor, para tentar fazer morrer alguém que lhe incomoda. Há quem arrume crenças tão moles e amorfas que podem justificar o inconciliável e trair a todo instante sem sentir qualquer coisa, nem pena, nem culpa, nem libertação. Apenas um leve aroma de subserviência, mas que tudo bem porque mal dá para sentir.

Sou só um fio de água de outra fonte, sua nascente muito antes, muito acima, montanha atrás de montanha e eu carrego apenas este fio que pouco trabalho socioemocional suporta mas que nem por isso esgotou-se. Você vê? O pequeno não é menor do que nada, e espetáculo nenhum é necessário para que seja precioso. Precisa mesmo muito pouco, mas se espalha, viajando pelos leitos e carregando minérios e peixes para as raízes conhecerem. Quando chamado pelo ardor do Sol, sobe aos céus pra virar nuvem: sem asas, sem milagre, sem espanto. Só a transmutação de sua própria natureza. Depois, no mesmo movimento, se desgarra e despenca sobre o Mundo para Ele poder multiplicar.

De que ordem seria a força, eu me pergunto, que quer calar a voz que diz haver ângulos que jamais se expressarão em números, cores que jamais se verterão em palavras, seres que jamais se nomearão em espécies, lugares que coordenada nenhuma poderá traçar? Sagrada é a força da criatividade. Dança com arrogância, é verdade. Mas este, aqui, não é o caso. Sabe do que são capazes os demônios que conheci? A vontade é livre, o desejo é inconsciente, mas a ação nunca passa despercebida.